Como a história ferroviária ainda marca o futebol em cidades paulistas
Por José Claudinei Messias, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários da Zona Sorocabana
O Campeonato Paulista de Futebol Masculino já começou e envolve 64 clubes em quatro divisões. Disputado desde 1902, o Paulistão é um dos campeonatos mais antigos do país – e sua história está diretamente ligada à expansão das ferrovias no Estado de São Paulo.
Antes de o futebol ganhar arquibancadas modernas e gramados bem definidos, ele avançou pelo interior paulista acompanhando o traçado dos trilhos. Em muitas cidades, as primeiras partidas aconteceram em campos próximos às estações, frequentados por trabalhadores das ferrovias que levaram aos novos núcleos urbanos não apenas o transporte, mas também práticas culturais, formas de convivência social e o hábito de torcer pelos clubes queridos. Essa relação entre futebol e ferrovia deixou marcas que ainda hoje são percebidas na paisagem urbana, nos clubes e na memória coletiva.
A ligação entre futebol e ferrovias no Brasil permanece viva sobretudo no plano simbólico. Atualmente, não há campos atravessados por trilhos nem torneios amadores relevantes concentrados ao longo das vias férreas. Ainda assim, alguns espaços preservam de forma direta essa herança, como o Estádio Nicolau Alayon, na Barra Funda, tombado por sua origem operária ligada à São Paulo Railway, e o campo histórico de Paranapiacaba, considerado o primeiro do país com medidas oficiais e construído no fim do século XIX para os ferroviários da vila. Embora os trens já não circulem por esses espaços, ambos mantêm identidade marcada pela proximidade com trilhos e estruturas ferroviárias.
Em diversas cidades paulistas, a influência ferroviária se expressa na formação de clubes de futebol. Araraquara, Bauru, Botucatu, Itu, Jundiaí, Ourinhos, Ribeirão Preto, Rio Claro, São Vicente, Sorocaba e São Paulo tiveram agremiações criadas por trabalhadores das antigas estradas de ferro, algumas das quais alcançaram projeção estadual. Entre os exemplos mais emblemáticos estão a Ferroviária, de Araraquara; o Noroeste, de Bauru; o Paulista, de Jundiaí; e o Botafogo, de Ribeirão Preto – todos nascidos do ambiente ferroviário e ainda identificados por mascotes, símbolos e tradições associados ao trem.
Parte dessas instituições segue ativa e com estrutura esportiva relevante. O Noroeste mantém estádio próprio, áreas de treinamento e ginásio; a Ferroviária continua utilizando a Fonte Luminosa e abriga o Museu do Futebol local; e o Paulista segue competindo, com o Estádio Jayme Cintra preservado e em funcionamento. Outras associações, porém, perderam suas equipes profissionais, mas permanecem como clubes sociais, caso da Ferroviária de Botucatu, que conserva um amplo complexo aquático e o Estádio Acrísio Paes Cruz para competições amadoras.
Há também exemplos de estruturas ferroviárias ligadas ao futebol que enfrentam abandono ou deterioração, como a antiga Ferroviária de Assis, enquanto outras passam por processos de revitalização comunitária. Em Paranapiacaba, por exemplo, o campo histórico está sendo restaurado para uso cultural e esportivo. Não há, contudo, registros recentes de ferroviários em atividade atuando como jogadores ou treinadores nem de adaptação atual de trilhos para proteger espaços esportivos.
Mais de um século depois da primeira edição, o Campeonato Paulista de Futebol segue mobilizando cidades inteiras, agora sob novos formatos e regulamentos. Em muitos desses municípios, porém, torcer continua sendo também um gesto de memória. O legado das ferrovias permanece presente na identidade futebolística de cidades moldadas pela expansão ferroviária e, em lugares como Bauru, Araraquara ou Jundiaí, apoiar clubes nascidos do trabalho nos trilhos é reconhecer um passado de migração, esforço coletivo e pertencimento. Assim, mesmo que os trens já não apitem à beira do gramado, seu eco ainda ressoa nas arquibancadas e sustenta uma história construída entre o ferro e a bola.
